27 agosto 2016

[texto] viajantes todos somos

   Estou cansada. Nem sei se das silvas que me rastejam sob os pés, mos laceram, mos fustigam, se do vento que ora sopra, ora amaina para deixar escaldar um vivo inferno de sol. Estou cansada, apenas e só cansada, de cada passo que arrasto.
   Rio quando me deparo com uma encruzilhada, cansada de mais para decidir sozinha; duas estradas, tão díspares entre si, que seguem separadas para o mesmo sentido. Viro-me para o trilho da esquerda, tão direito e uniforme, calcetado a facilidade e algo que cheira a ânimo; de semblante já tudo menos carregado, sinto-me a sorrir cada vez mais e na minha voz acentuei toda a minha amabilidade.
   - Diz-me, estrada, para onde vais?
   E num murmúrio, as pedras brilhantes e polidas lançaram a sua resposta com o vento.
   - Para o teu destino.
   Era satisfatório o suficiente, parecia-me. Ainda assim, antes de embrenhar os pés por aquele caminho, decidi experimentar o outro.  Tentei contê-lo, mas aquele travar da minha respiração chocada ressou demasiado alto para ser ignorado, mas que culpa tinha eu?: o maldito do caminho enveredava para um arvoredo denso e escuro; ouvia um grasnar e um murmúrio interminente e gutural, e adivinhava altos e baixos por todo o caminho. Torci o nariz: o próprio terreno era de terra batida, empoeirado e árduo. Perguntei também de qualquer maneira.
   - E tu, estrada, para onde vais.
   Respondeu aquele som roufenho e boçal, vindo das entranhas do matagal.
   - Para o teu destino.
   Não precisei de muito para me decidir. Fui sem reconsiderar pelo caminho da esquerda, e logo o dia me afigurou belo e pacato; sempre a direito, depressa perdi o gozo por cada passo revigorado que pousava nos ladrilhos da calçada, mas reconfortava-me olhar para a direita e ver aquele caminho que seguia na sua irregularidade por montes e desfiladeiros e saber que não seguia por ele.
   Num ápice me vi no meu destino. Nada havia lá de notável: vazio apenas, e nada mais.
   - Mas então e agora? - perguntei ao caminho, nem eu me sabia dizer se angustiada se verdadeiramente revoltada. - Já cá cheguei, que faço agora?
   - Ninguém sabe o que há agora - redarguiram as pedras. - Escolheste facilidade, se não me engano? Escolheste vir depressa, não foi? 
  Baixei a cabeça, fitando as lajes polidas que tinha sob os pés, ergui os olhos para ver o caminho de terra que se estendia sobre encostas solarengas e sombras frescas. Por ali teria caminhado mais; por ali teria sofrido mais; por ali teria aprendido mais. Por ali, sei que, por muito que custasse a viagem, teria vivido mais. Afinal, de que serve um destino se não houver viagem?
   Viajantes todos somos: todos queremos o que a vida tem de fácil sem querer lutar por isso; todos queremos a recompensa pelo que não fomos capaz de ousar. Todos queremos o alívio inundante de uma gargalhada sem nunca ter sofrido para isso.

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