06 setembro 2016

[to:] gramps

   Não deixa de ser curioso: nem fazes anos, nem nada que se pareça ... sonhei apenas contigo. Sonhei, sim, porque embora já não te veja ali, esperando-me pachorrento de chanatos calçados de jornal na mão, vejo-te noite após noite, sentado num cantinho calorento das minhas memórias.
   Sinto falta das tuas histórias? Talvez, talvez sinta muito a sua falta, repetida ou não pela quarta vez. Como as queria ter gravadas, ou escritas nessa tua caligrafia aprumada e ininteligível, mas terei de contar com a memória para isso, creio. Basta-me: a tua voz não é nada que se esqueça, oiço-a arrastar-se pelos pensamentos e a rolar palavras com mansidão. Sinto, sinto falta das histórias ... 
   Sinto falta de quem se orgulhe, de quem não se envergonhe em tomar-me por família; saudades de quem via em mim discípula dos ensinamentos que o teu passado tinha para me dar; que resta agora? Sombras do que outrora fui, fiapos do que outrora me viste ser.
   Saberás ainda o meu nome? Recordarás como eu recordo cada palavra que um dia disseste? Talvez não; já nem do dia de ontem te recordavas, coisas banais não se alojavam na tua memória. Não ias para novo, velhote! E tu sabia-lo.
   Não sou nem um reflexo do que eras: bom, recto, justo; de sorriso fácil e opinião cuidada. As expectativas, deixaste-as demasiado altas para eu conseguir tentar sequer igualar. Mas não faz mal: conforta-me lembrar a todos que se tu, do alto do teu direito de torcer o nariz, não o fazias, então que ninguém mais teria moral para o fazer.
   Fizeste mossa, tu. Marcaste, se marcaste! Mas nunca por mal. Deixaste apenas a certeza que, como tu, não conhecerei igual.

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