07 janeiro 2017

a fotografia

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Aquando a morte do meu avô, a afluência de fotos soltas e álbuns plenos delas foi incrível. Antigamente, quando eu lá ia, era na casa dele que via as que ele escolhia mostrar-me: por regra muitas fotos dos seus pais, um ror delas da minha avó, muito poucas de Timor. Agora que as tinha cá em casa mas já não o tinha por cá, via-as desordenadas, sem aquela selecção cuidada de quem esconde. Eram espantosas, únicas, como apenas uma fotografia sabe ser, mas apenas uma, que se contava entre o espólio de Timor, veio a capturar-me todo o meu interesse e sonhos.
O meu pai saiu de casa, e os álbuns saíram com ele. Por meses, não pensei em nenhuma das fotografias, com a tranquilidade lânguida de quem sabe algo precioso assegurado e garantido. Sabia-as longe, mas acessíveis, sem me estarem vedadas – e isso bastava-me.
Mas a nova casa do meu pai ardeu.