07 janeiro 2017

a fotografia

Aquando a morte do meu avô, a afluência de fotos soltas e álbuns plenos delas foi incrível. Antigamente, quando eu lá ia, era na casa dele que via as que ele escolhia mostrar-me: por regra muitas fotos dos seus pais, um ror delas da minha avó, muito poucas de Timor. Agora que as tinha cá em casa mas já não o tinha por cá, via-as desordenadas, sem aquela selecção cuidada de quem esconde. Eram espantosas, únicas, como apenas uma fotografia sabe ser, mas apenas uma, que se contava entre o espólio de Timor, veio a capturar-me todo o meu interesse e sonhos.
O meu pai saiu de casa, e os álbuns saíram com ele. Por meses, não pensei em nenhuma das fotografias, com a tranquilidade lânguida de quem sabe algo precioso assegurado e garantido. Sabia-as longe, mas acessíveis, sem me estarem vedadas – e isso bastava-me.
Mas a nova casa do meu pai ardeu.

De início, amargurei-me pelos livros que sabia perdidos; ao longo do dia, lastimei os objectos soltos que me vinham acometendo a mente, mas só ao fim da tarde é que me ocorreram os álbuns. Corri para casa para assegurar ao meu pai que deixara para trás o álbum do casamento e uma ou outra caderneta e envelopes repletos de memórias, contando que isso o acalmasse, que consolasse a perda dele daquelas recordações físicas que ele com o envelhecimento da memória teme esquecer.
Ele sorriu algo magoado por lhe ser impossível tirar do pensamento tudo o que se perdera. Eu, por minha parte, que já tinha passado em revista todas as fotografias que ele deixara para trás e encontrei dezenas de momentos que me eram desconhecidos, perguntei-lhe apenas pela minha fotografia preferida, que não se contava entre as que revirara.
Perdeu-se. Perdeu-se, disse-me ele, e eu limitei-me a sorrir. Tal como ele, temo o esquecimento, já que esquecer é o cúmulo da morte. Receio esquecer aquela imagem que eu estupidamente pensava entalhada na minha memória.
Aquela fotografia é ímpossível de recriar: a camaradagem e amizade de dois exilados numa guerra que não era deles esbatida contra o sol poente, a dedicatória, as cores que respladeciam e pareciam arder … Perdeu-se!: perderam-se os dois combatentes que folgavam, perderam-se as palavras, já nem o sol de Timor será o mesmo …!
Ardeu. Lastimo que se tenha perdido, mas perdeu-se. Olhando agora a memória que dela guardo, vejo como profetizava o seu futuro: ardeu consumida pelas chamas raivosas, assim como se consomia o sol de Timor que, detrás das montanhas, esbatia as suas chamas. E às cinzas voltámos.


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