24 fevereiro 2017

da omnipotência ou livre-arbitrío

   Sendo aluna do ensino secundário, todos os dias tenho o privilégio de conviver com um relance do que será o futuro do país; afinal, que melhor altura senão esta para em nós, os jovens de hoje, se começarem a alardear os estrepitosos agouros do que seremos? Nisto já encontro por aí todo o tipo de idealistas, um vasto leque de resolutos ateus ou assumidos vencidos da vida -- porque, com a nossa parca idade, julgamos ser já detentores de toda a razão que cabe no mundo.
   Falo por mim, ao menos, porque me sinto orgulhosamente picar quando quesitonam o que penso saber: fico num exaltado silêncio, já que a consciência ou a falta de argumentos me acautelam a não dizer nada. Todos nós, no fundo, convictos que pensamos algo de novo, limitamo-nos a desbobinar frases badaladas que nos encaixam perfeitamente nas nossas justificações enquanto não aprendemos  a (ou ganhamos a coragem para) pensá-las por nós.
   Um colega meu, por quem guardo grande estima, é um desses ateus confessos -- é talvez o ateu confesso que me faz generalizar um pouco o termo. Sobre o seu ateísmo, fundamenta-se com frases vagas -- como também eu o faço -- que eu lato resumo resultam naquelo perpétuo apelo à ignorância: «Ninguém provou que Deus existe, logo não existe». Reconheço que também já ouvi cristãos justificar a sua crença com a inversão do argumento.
   Ora o meu Tomé (vou chamá-lo assim já que o nome me parece adequado) diz-me por vezes, como também já ouvi dizer a outrém, que, se Deus é real e tão omnipotente como se declara, como pode ele condenar milhares de crianças à morte pela fome e pela miséria. Não querendo ofender ninguém, permitam-me dizer que isto me soa a demasiado desdém por algo que, claramente, não se atreveu a analisar antes de colocar a questão.
   Mas antes de mais, queria apenas deixar claro que não é para provar a verdade da existência de Deus que escrevo, mas antes analisar a sua hipotética incidência sobre este assunto.

   Segundo o pouco que entendo de Cristianismo, a premissa chave é que «Deus é pai». Ora pergunto a quem for pai -- ou a adolescentes que no futuro poderão igualmente ser pais -- se, depois de darem aos vossos filhos o maravilhoso dom da vida, lhes restringem as margens de manobra para que eles a vivam da maneira que vocês consideram correcta? Muito provavelmente não, ou caso o façam, deixem que vos digam que os vossos filhos não acharão muita piada à brincadeira. Pois agora pressupunhamos: como reagiria o Homem se tivesse uma entidade déspota a regular-lhe todas as acções? Talvez reagisse mal, talvez exigisse a sua oportunidade de aprender com os seus erros e pela sua experiência (um pouco como um adolescente impedido pelos pais de ir a uma festa algo dúbia).
   A meu ver, a crença em Deus é assim injustamente atacada, extremamente caricaturada; falo por mim!: os meus pais, enquanto pais, fazem por me aconselhar a tomar as melhores decisões e ajudar a ser a melhor pessoa possível, mas não me forçam a isso. A premissa é que, quer eu dê por mim no futuro como sem-abrigo quer venha a subjugar milhões de pessoas sob uma ditadura, continuarão a amar-me na promessa do incondicionalmente, mesmo que as minhas escolhas os desapontem -- sempre na esperança que eu me arrependa a tempo de aprender a lição caso discordem do que me tornei.
   Portanto não culpemos Deus das falhas humanas: se há pobreza, não é porque Ele queira -- quando muito porque terá sido ele a evoluir o génio humano até ao momento en que nos lembrámos de criar as noções de economia e dinheiro que viémos a evoluir, mas as decisões tomadas acerca de como ganhamos e onde investimos riqueza acumulada não serão por certo fruto da inspiração divina mas do nosso livre-arbítrio. Por outras palavras e em grosso modo, não posso culpar os pais de Mussolini pelo fascismo ou atribuir aos pais de Rubens as obras do filho -- quando muito posso sim atribuir-lhes a existência que permitiu o que seja que eles fizeram e posso condenar ou gabar o génio (bom ou mau) que, quer pela genética quer pelos valores morais, incutiram nos seus filhos, mas nunca culpá-los por algo conscientemente realizado pelos filhos!
   Porque pobreza e crianças à fome não é algo inerente à suposta vontade de Deus, mas sim à acção e escolhas humanas. Enquanto força criadora da alma humana, Deus lá esperará que nós nos apercebamos do que escolhas de alguns fazem a muitos. O problema da questão humana, até agora, é que eternamente nos recusamos a aprender a lição.

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