29 agosto 2017

dinastia

     Era uma vez. Uma vez alguém que visionou, alguém que quis quebrar o paradigma, que o imaginou quebrado. Uma vez alguém que fez não mais que todos, mas granjeou a adesão de uns quantos mais fascinados pela sua loucura. Uma vez alguém que denunciou as injustiças, que as bradou, que as relevou, que propôs soluções, que se tentou explicar, que guiou, que orientou, que lutou, que debateu, que ...

     Era uma vez uma vida devotada a uma visão. Uma vida. Mas vida é efémera, e de gorjeta deixamos uns pedaços de ideias e pensamentos. 
     Era uma vez um Homem. O Homem morre: a terra lapida-lhe o corpo e as Gentes delapidam-lhe a ideia deixada em herança. 

    A Humanidade é um solo infértil: das rosas plantadas brotam espinhos apenas. Pior: a Humanidade é uma criança ingénua, e coroa a cabeça de espinhos julgando ver as rosas. Se sangra, chora grata. Vê beleza na dor e julga que é assim que deve ser e que nada mais vale a pena.
     Deus ao Homem deu o criar, e o Homem criou as diferenças. Fronteiras há entre a Vida e a Morte, mas o Homem luta pelas que vê na terra que julga sua. Temos nós a Terra ou é a Terra que nos tem? Conhecêmo-la por mão mal cheia de anos, não a vimos antes nem a veremos depois; ela conhece-nos a nós, aos que foram antes de nós e aos que depois de nós serão. O erro do Homem está em passar a terra como herança sem perceber que passar pela terra é a sua herança.
    Erguemos impérios de ideias, fazemos guerras de papel, lutamos com ar. Somos capazes de julgar aquele que pensa diferente com pensamentos de outrém. O humano é original e não o é. O humano é criativo sem o ser. O humano é aquilo que pensa ser, porque apenas o ser humano prende palavras a atitudes e das suas atitudes faz-se. Somos, enfim, o que achamos ser correcto, mas quem criou a noção de correcto fomos nós.
     Somos artificiais porque apelidámos a natureza. Somos não mais que uma produção de nós mesmos.
     

1 comentário:

  1. Olá, tudo bem? Gostaria de fazer parceria contigo! Já estou seguindo o blog, e adorei.

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