21 outubro 2017

dispersos #1

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Levamos desta vida ou deixamos desta vida? A única coisa que me é certa é que deixarei muito mais que levo: o meu peso morto pesará muito mais que milhares de memórias leves levianas e uma alma vazia.
Mesmo que queira, não saberei pesar. Mesmo que muito queira, nunca farei de mim um ser grave. Gravito na minha inconsciência de agir consequentemente. Sou ar na medida em que nada me pesa; sou pedra no modo em que firo sem nunca o saber. Tenho tanta culpa como a pedra arremessada.
Desta vida nada levo porque nunca carreguei nada, nunca tive nada, nunca me quis fazer nada. Desta vida nada leva – a esta vida eu dei-me. A esta vida eu dou – não levo – no nascer da minha morte.
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Amamos as pessoas na medida em que amamos a imagem que elas devolvem de nós. E é só.

Amor? Mito. Não há senão amor ao próprio.
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Estamos num mundo de almas velhas e de almas mortas.

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Ruas há que não têm nome – não que não o tenham, mas não lho proferem: tratam-nas por proximidade daquilo que estão, despem-nas de nomes de gala e cerimóniae localizam-nas consoante o que é deveras conhecido.
Assim são as pessoas.
Chamar alguém de “neto de fulano” é o mesmo que falar na “rua do Tribunal”: as ruas têm nome, o sujeito também, mas ali estão ofuscadas no redor imérito de alguém.
Em vida não fui mais que o neto deste, o sobrinho daquele, e isto identifica-me como um passaporte para onde vá. Vezes há em que me irreconhecem: vêem as feições mas não lhes herdei os feitos. Vêem-me a mim e esperam que os seja.
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Está tudo muito visto. Está tudo mais que visto. Originalidade não a há; revoluções não são mais que repetições orgânicas de si mesmas. O futuro é uma revivência do passado, e o presento é antecipação disso mesmo mesmo; o diferente é o amanhã.
Os dias repetem-se não na sua ordem, não no seu modo de se passar, mas na forma como os passo. Um dia está condenado a nunca ser igual mas eu estou destinado a ser sempre o mesmo; reagirei sempre por um redundante igual porque eu não mudo. Os dias passarão por mim até eu deixar de passar por eles. A minha existência matérica não será senão isto, e depois não sei.

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Deus não tem calendário.

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O tempo é uma ampulheta por onde os homens, como grãos, passam.

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Sinto-me absurda bucólica. Os campos, as serras … tudo tento e nada serve: a minha escravidão não tem morada fixa – a tê-la, será então esta forma fixa que faz humana a minha alma. O fado do Homem é ser prisioneiro em si.
A alma é vagabunda. Rafeira. Divaga na ilusão de parcas liberdades, passeia-se nos sonhos, faz crer que há mundo além disto!, parar depois nos regressar e dizer que não há nada senão isto por agora.

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Estou cansado, cansadamente cansado. Quero dormir larga e longamente. Se houver Deus para me acordar, Ele que deixe a minha alma descansar.

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